“A risada é a essência do povo Krahô”

A atriz e diretora Letícia Sabatella e o protagonista do documentário Ismael Apract Hotxuá
A atriz e diretora Letícia Sabatella e o protagonista do documentário, Ismael Apract Hotxuá

A noite da sexta, dia 17, no Cine Vivo, foi encantada com a presença ilustre da atriz Letícia Sabatella, de Ulisses Monteiro, indigenista da União das Aldeias Krahô e do protagonista do documentário Hotxuá, Ismael Apract Krahô. Estrela do projeto, Ismael exerce grande liderança na sua aldeia atuando como palhaço, ou aquele que traz alegria a tribo, que trabalha com a auto-estima dos índios. Considerado por Letícia como um dos grandes atores brasileiros, o Hotxuá, ou palhaço, possui tamanha importância na comunidade Krahô, tal qual o cacique. “A risada é a essência do povo Krahô”, afirma. O artista circense Ricardo Pusseti, do grupo Lume, também foi convidado para as filmagens e uma das cenas marcantes do documentário acontece quando o dois palhaços, o indígena e o europeu, se encontram e se comunicam através da linguagem da brincadeira.

O filme ficou pronto em 2007 e já foi exibido em outras cidades, tais como Tiradentes, no Mato Grosso, no Encontro Internacional de Palhaços no Rio de Janeiro, em Campo Grande no Mato Grosso do Sul, além de Dourado e Bonito. A repercussão foi muito boa e os direitos autorais foram direcionados para a comunidade Krahô. Esse documentário será exibido novamente hoje, às 18h50, no Cine Vivo.

Hotxuá é aquele que equilibra os opostos através da risada e das brincadeiras
Hotxuá é aquele que equilibra os opostos através da risada e das brincadeiras

O equilíbrio das forças opostas

Adotando a filosofia de que os opostos se complementam, ao invés de focar nos embates, o sentimento de irmandade prevalece. Hotxuá são palhaços que fazem as pessoas rirem através das brincadeiras. Ele possui total liberdade para entrar nos lugares e provocar risos, mudanças de humor. As demais pessoas não sentem inveja dele, pois sua função é manter o equilíbrio na aldeia e superar as dificuldades através da alegria. Apesar da predominância masculina, também existem mulheres Hotxuá. Nas palavras de Ismael, “qualquer grupo que brinca é Hotxuá. Todos gostam das brincadeiras. E se eu brincar sozinho, não tem graça”. Para se tornar um Hotxuá, é necessário ser batizado. Dessa forma, ele é preparado para desenvolver um olhar atencioso, já que se propõe a trazer a alegria para a aldeia. O palhaço também é conhecido por ensinar pelo avesso. Como no caso de uma das cenas do documentário em que se vê algumas crianças nadando no rio, competindo para saber quem era a mais forte. Nessa hora, o Hotxuá aparece e brinca com isso, interpretando um personagem que é mais fraco, que não consegue nadar no rio. É a idéia de diminuir a competição através das brincadeiras, de mostrar como se vive em harmonia, preservando os limites. Um dos festejos mais conhecidos é a Festa da batata, que celebra a colheita e é realizada durante o verão. Nesse encontro, questões políticas e indígenas são discutidas pelos participantes. E por causa do alto índice de dizimação da população Krahô, a preservação da cultura se constitui como uma obrigação e a importância disso é passada para as gerações posteriores.

Ulisses Monteiro, indigenista da União das Aldeias Krahô, ao lado de Ismael
Ulisses Monteiro, indigenista da União das Aldeias Krahô, ao lado de Ismael

Sustentabilidade X Neocolonialismo

Antigamente, a América Latina era composta pela vegetação do cerrado e devido aos movimentos migratórios das tribos, surgiram as florestas Tropical e Equatorial. Eles exerciam o extrativismo, como caça e pesca e plantavam vários alimentos, além de preservar santuários ecológicos ligados a nascente de grandes rios brasileiros. As tribos tinham consciência da preservação desse lugar. Atualmente, esses santuários tem sido destruídos por causa da maciça plantação de soja. Como Letícia Sabatella afirma: “A diversidade da natureza se contrapondo com o cultivo de uma monocultura”. Dessa forma, não somente o aspecto físico vai sendo atingido, mas elementos simbólicos da cultura. A língua do índio se faz daquilo que ele nomeia. Se o investimento da soja cresce, a língua do índio é destruída também, pois suas plantações perdem espaço. A propaganda sobre essa ação se vê em toda região, onde os outdoors anunciam: Tocantins, o estado da soja.  Além disso, o Governo Federal, através do PAC, mandou construir mais de 30 barragens, para a extração de alumínio visando à exportação. Isso tem alagado a terra de quatro etnias, inclusive a do Krahô. Nesse ínterim, Letícia questiona: “Que modelo de desenvolvimento nós queremos? Pensar em métodos a favor da sustentabilidade ou manter a exploração através do neocolonialismo? O que vemos é a extração e a venda por um preço que não cobre o dano ambiental”.

Letícia, a ilustre convidada do 6º Festival Internacional de Cinema de Salvador
Letícia, a ilustre convidada do 6º Festival Internacional de Cinema de Salvador

A experiência da direção

Sobre sua experiência com a direção do documentário, Letícia Sabatella afirma que foi legítimo assumir essa função e que, a vontade surgiu naturalmente, pois se identifica como mãe do projeto. Participando diretamente da montagem, apesar de não ter como objetivo produzir outros longas. Isso vai depende de um impulso maior, como aconteceu no caso do registro da cultura dos Hotxuá e da comunidade Krahô.

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