A Tarde destaca estreia de Canção de Baal

Longa anarquista marca estreia de Helena Ignez na direção

O filme se inspira na obra do dramaturgo Bertolt Brecht e traz influências do cinema de vanguarda do diretor Rogério Sganzerla

Jornal A Tarde – 11.10.2009
JOÃO CARLOS SAMPAIO

A estreia da atriz baiana Helena Ignez como cineasta é o principal destaque de hoje na programação do 6º Festival de Cinema do Grupo SaladeArte. O filme é Canção de Baal, uma narrativa anárquica, inspirada na obra do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, que foi premiada na última edição do Festival de Gramado, em agosto. A sessão acontece às 18h20, na SaladeArte-Cine XIV, no Pelourinho.

Cena do filme
Cena do filme

Canção de Baal mais parece teatro filmado do que cinema, mas isso não é um defeito. Pelo contrário, Helena Ignez se mostra muito à vontade na exploração de uma dramaturgia com alguns tons acima do naturalismo realista. Exibe desenvoltura também na construção de belas situações visuais, substituindo discursos de fala por elaborações visuais que estimulam os sentidos.

Opersonagem central é Baal, interpretado por Carlos Careqa, que é mais conhecido como cantor e compositor atuante na cena independente de São Paulo. No filme, ele faz um artista cortejado pelo mainstream, mas que prefere se manter outsider. Recusa planos de ascensão social e prefere se juntar a uma comunidade de ares hippies, onde celebra, com sua música e poesia, a liberdade e a anarquia.

Baal é beberrão, zombeteiro e sem pudor.Na comunidade,cercase de mulheres e amigos de copo e de ócio. Festeja a vida e se envolve em conversas e brincadeiras, que não anseiam nada de realmente sério, senão a transcendência dos limites e regras do convívio social. Na taberna ou na floresta, ele assume a sua identidade de exu, sempre provocativo e ansioso por levar o caos aonde passa.

Além de brechtiana, a narrativa criada por Helena Ignez prefere a fragmentação e a própria ausência de clareza. Numa das falas de Baal é dito que se uma história é bem compreendida é porque foi mal contada. Como seu herói, a diretora busca fazer o mesmo, estabelecer impressões e vestígios mais do que certezas e uma linearidade que possa ser resumida numa sinopse.

Vanguarda Não é errado dizer que Canção de Baal é um delírio com anseios de vanguarda ou com nítidas informações tropicalistas em sua forma de expor seus assuntos.

O filme se articula com um certo gozo pela convulsão, pela multiplicidade de conceitos, como se fosse um desordenado bloco de anotações. Na verdade, a falta de ordem é sua meta como resultado, porque o filme tem uma linha bem formada enquanto expressão.

Viúva de Rogério Sganzerla, um dos expoentes do cinema udigrudi surgido na virada para os anos 70, Helena Ignez segue firme a busca por uma arte que proponha a renovação. Tanto assim que Canção de Baal não encontra paralelo no cinema brasileiro dos dias atuais e, mesmo dando conta de um tipo de postura que era novidade nos anos 60, não soa velho. Ao revés, soa mais vivo e pulsante que boa parte da produção contemporânea.

Experimental O elenco numeroso do filme, com seus personagens-arquétipos, conta ainda com Simone Spoladore, Djin Sganzerla (filha de Helena e Rogério) e Beth Goulart, além de Felipe Kannenberg, Michele Matalon e Marcelo Lazzaratto.

Todos circundam Baal e participam de seus jogos devassos, integram aação-poesia que é a sua própria condição de existência no mundo.

Uma tentativa de classificação para este filme esbarraem sínteses imprecisas, o gênero mais próximo a esta obra é o experimental, o que também não diz muito. Musical, delirante, inconformado são adjetivos que caem bem ao rico universo que Helena Ignez propõe.

Quem não puder conferir a sessão de hoje vai ter mais duas oportunidades dentro da programação do festival, ambas na SaladeArte-Cine XIV. Na quartafeira, o filme será projetado às 16h10 e na próxima semana, na segunda, dia 19, será exibido às 20h30.

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